sábado, novembro 18, 2017

«Qual casa, quais livros, quais quadros?»

As pessoas mais próximas ainda não perceberam até que ponto o António ficou afectado com a fogueira grande que deixou a casa de campo apenas com as paredes.

A Ana anda preocupada e diz a todos os amigos que o companheiro não anda bem. Tudo porque quando alguém lhe "quer medir o pulso", para saber coisas que ele desistiu de quer saber e lhe faz perguntas sobre tudo o que aconteceu, ele com um sorriso nos lábios diz: «Qual casa, quais livros, quais quadros?»

Com os amigos mais próximos vai mais longe nas explicações: «Há muito que a casa precisava de uma remodelação. Nos últimos anos foi tratada como "depósito de lixo", levávamos para lá o que não nos fazia falta. Os móveis que não queríamos, as roupas que não usávamos, os livros que não líamos e os quadros que não cabiam nas paredes. Agora voltou tudo ao início. Vai voltar a ser a casa dos primeiros tempos, quando acabarem as obras.»

E vai ainda mais longe no seu sorriso: «Talvez volte a ter tempo de pegar na viola no quintal e tocar para os pássaros.»

Mesmo assim desconfiam da sinceridade das suas palavras. Não compreendem que ele seja capaz de dizer, «Voltar atrás para quê?», um lugar comum que é título de livros e de filmes, mas que é a melhor solução para se conseguir continuar a andar em frente, sem andar com os bolsos cheios de "fatalidades". 

Não sei se é o facto de ser homem (com um bom poder de abstracção - que há quem chame capacidade de "fugir dos problemas"...), que me leva a compreender o António. Sei que o que ele quer dizer é que há coisas mais importantes que os objectos que vamos guardando pela vida fora, por muito que façam parte das nossas memórias...

(Fotografia de Tarlé Dominique)

sexta-feira, novembro 17, 2017

Os Meus Passeios Mágicos com Romeu Correia...


Quando pensei em escrever o meu último livro, "Passeio Mágico com Romeu Correia", tinha como principal objectivo, homenagear, e dar a conhecer, quem foi realmente Romeu Correia, que por vezes é "criticado" por quem nunca leu um livro da sua autoria nem assistiu a uma peça sua.

Mas não pensei nestes "amigos da onça" (que também aprendiam alguma coisa com a sua leitura...), pensei sobretudo nas gerações mais novas, que apenas conhecem Romeu Correia por ser o patrono da grande sala da Cultura de Almada. Com o meu livro ficam a conhecer o Romeu em todas as suas vertentes, especialmente nas que mais se destacou (literatura, teatro e desporto).

Recordo sobretudo os nossos passeios pelo Almada, que foram a fonte de inspiração para o título deste livro. E vou transcrever o que escrevi na "Apresentação", neste dia que é de Romeu Correia:

[…] O uso da palavra “mágico”, dentro de um “passeio”, fez-me recuar no tempo, voltar às nossas “piscinas” que começavam na esplanada do senhor Manuel, na Praça da Renovação. Depois avançávamos pela rua Fernão Lopes, atravessávamos o Largo do Tribunal subíamos as escadas até ao Jardim, e quase sem darmos por isso, estávamos na Rua Direita... Íamos parando aqui e ali, para que o meu querido “cicerone” me explicasse melhor, quem eram as personagens que se iam misturando na nossa conversa, dando vida a uma Almada que continua a existir na memória do Romeu e das Gentes que se orgulham de viver numa Terra solidária e fraterna, que não deita fora o passado (o Orlando e o Chico permanecem na primeira fila...).[…]

quarta-feira, novembro 15, 2017

A Famosa Folha Branca...

Eles falavam de folhas em branco, de inspirações e transpirações, da "espera" que se faz às histórias, e que mesmo assim elas escapam-se por entre os dedos.

Mas as coisas mudaram muito, já quase ninguém escreve em papel (o António é um dos poucos resistentes, com a sua letra pequenina que se cola às folhas como lapas...), fingem tocar piano nos teclados, que a única coisa que sabem é soltar letras que querem ser palavras, frases, capítulos, contos, novelas, romances... entre outras coisas.

Eu estava ali em silêncio, com vontade de fingir que ia fumar um cigarro à varanda, porque já estou tão habituado a escrever por escrever, que nem sequer me lembro de "vacilar" perante a famosa folha em branco.

Ou então fazia "voar" as ditas folhas, transformando-as em aviões de papel...

(Fotografia de Ann Mansolino)

terça-feira, novembro 14, 2017

O Começo e o Fim do Amor têm Sempre Muitas Nuances...


Às vezes as pessoas contam-nos coisas, demasiado fortes, que podiam ser de livros ou de filmes, mas são mesmo da "vidinha"...

Um amigo que já vive há muito uma "segunda vida", contou-me o que lhe fizeram num dos momentos de maior fragilidade da sua vida. Naquilo que hoje considera um acto frio, de pura vingança, não por ser um mau rapaz, mas apenas por ter sido sempre dono do seu nariz.

Acabado de chegar do hospital, após uma operação delicada, foi "depositado" na cama cheio de dores. A companheira saiu para ir à farmácia para lhe comprar medicamentos que precisava com urgência. Mas esta deve-se ter olhado ao espelho e sentido mal com o seu aspecto e pelo caminho resolveu passar pelo cabeleireiro. 

Quatro horas depois, quando chegou a casa, ele quase que agonizava, na cama, com dores infindáveis...

O recado fora transmitido. O começo e o fim do amor têm sempre muitas nuances...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 13, 2017

"Duplicidades" (era o título...)


Descobri hoje o começo de qualquer coisa... um texto ainda do século passado que queria ser uma história qualquer. O jornalismo estava presente, na pele de Pedro Gama, o protagonista do meu primeiro (e único...) romance, "Bilhete para a Violência". Sem perceber bem porquê, pelo menos hoje, é uma história de perdas:

«Ao entrar na redacção do jornal, Pedro experimentou uma sensação nova, estava tudo silencioso. Sempre pensara que os jornalistas, habituados a conviver com os dramas do dia a dia, nunca fechavam para balanço.
Aproximou-se da secretária arrumada de Patrícia, recordou a colega bonita e inteligente, revoltada com um mundo que ainda não aprendera a conviver com esses atributos. Pedro olhou durante alguns segundos para os jovens redactores que escreviam como se estivessem dentro do cinema a ver um filme. Foi quando um toque ligeiro no ombro o trouxe de regresso ao mundo dos vivos. Era a Helena, boa jornalista e companheira. Fora ela que lhe comunicara em primeira mão a morte da Patrícia.»

Percebi que era um policial, que a jornalista aparentemente se tinha suicidado, mas apenas, aparentemente...

(Fotografia de Cecil Beaton)

domingo, novembro 12, 2017

A Dualidade da Amizade e a Santa Bárbara...

A vida vai-nos ensinando sempre a separar o trigo do joio. As pessoas podem-nos enganar algum tempo, mas nunca para sempre.

É também por isso que não devemos usar demasiado a palavra "amigo", ao ponto de a banalizar.

Hoje estive a ler um caderno de palavras datado de 2006. Uma das coisas que me chamou a atenção foram as palavras que escrevi sobre a amizade, que transcrevo (continuo a pensar da mesma maneira). 

«Um verdadeiro amigo não se preocupa com as coisas pequenas, não nos chama a atenção por nos termos esquecido de uma vírgula numa crónica, nem tão pouco diz que estamos mais gordos ou usamos o cabelo demasiado curto ou grande.
Um verdadeiro amigo preocupa-se com o nosso bem-estar, além de falar das coisas que realmente importam, se perceber que estamos num dia mau, é capaz de nos oferecer uma história divertida, só para afastar o tédio e todas as coisas com pouco sentido.»

Claro que não escrevi isto por acaso. Foi por perceber que esta definição não era igual para todos. Há por exemplo quem pense que um amigo é aquele que tem uma paciência infinita para nos aturar, embora este princípio só se aplique a ele e nunca a nós...

Ou seja, há muito quem só seja "amigo" para receber e nunca para dar.

Mas eu sei que estou diferente. Sei que em 2006 não era capaz de dizer a alguém que me telefona a pedir ajuda, «Já sei que me está a telefonar para pedir alguma coisa. E ainda não é hoje que me telefona para me dar alguma coisa...» Hoje sou. E de alguma forma acabo por desarmar pessoas que só se lembram de "Santa Bárbara quando chove"...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, novembro 11, 2017

O Assédio Quase Permanente ao Nosso Olhar nas Ruas...


Sei que as mulheres têm demasiadas razões para se queixarem de assédio sexual, tanto no trabalho como nas ruas. Já senti nojo, e até vergonha,  de alguns homens (sempre mais velhos que eu...), pelo que eram capazes de dizer às moçoilas, de várias idades, com quem se cruzavam nas ruas.

Mudando de avenida, também me faz alguma confusão a forma como algumas mulheres "desfilam nas ruas", com decotes que nos puxam os olhos para as suas "explendorosas" e saias curtas que prometem mais do o que escondem, quase sempre em cima de sapatos de meio-metro que as fazem andar quase num "samba urbano".

É aqui que, mesmo que os olhos não digam qualquer palavra, todos nós, homens, sentimos que eles "falam" demoradamente com todas estas paisagens humanas que decoram os caminhos das cidades...

Sem querer misturar as águas, talvez também seja boa ideia, falar um pouco sobre este caso pouco escandaloso, do assédio quase permanente ao nosso olhar nas ruas...

(Fotografia de Philippe Halsman)

quinta-feira, novembro 09, 2017

Recomeçar (ou não) de Novo...

Encontrei um rapaz que de vez enquanto desaparece do mapa e estou anos sem o ver.

Ao contrário de mim, já viveu muitas vidas no mundo que nos espera à porta de casa, todos os dias. Só casamentos foram três, todos eles de curta duração (o que durou mais ficou-se pelos quatro anos...). Já morou em várias cidades e países, mas acaba por voltar sempre à casa dos pais, os únicos que nunca lhe fecham a porta...

Está mais desiludido que nunca, por saber que já não vai para novo e que cada vez há menos empregos para quem se aproxima dos cinquenta. A primeira vez que o vi sorrir durante a nossa conversa foi por causa das histórias de assédio, que estão na moda, ao ponto de ele pensar que sempre deve ter sido um "assediador" militante, pelo menos nos trabalhos onde havia gajas boas. Disse isso como se o "atiranço" fizesse parte da nossa condição de "macho".

E a partir de aqui a conversa melhorou bastante. Foi delicioso vê-lo a "despir e a vestir" as mulheres que foi conhecendo e despachando, e também das outras, que o despacharam... Debitou lugares-comuns a uma velocidade incrível. Afirmou saber, por experiência própria, que todo o amor tem prazo de validade, mesmo que exista por aí muita boa gente que se finge feliz, por ter um casamento com cinquenta anos e mais.

Quando nos despedimos percebi que não é só a vida que nos quer correr mal... nós também nos esforçamos para que ela caminhe (ou não...) para os lados errados, do dia ou da noite...

Somos todos diferentes e todos iguais. É por isso que há quem consiga viver a vida inteira no mesmo lugar e também quem precise de andar a saltitar de terra em terra, à procura daquilo que parece não existir...

(Fotografia de Ruth Orkin)

quarta-feira, novembro 08, 2017

A Gente Pequenina do Meu País...

Já nem me apetece dizer que estou farto da "gente pequenina do meu país", porque são "muitos mais que as mães" (e nem sequer posso dizer que elas não têm culpas no cartório)...

Mas incomoda-me que passem a vida preocupados com o vizinho que comprou um carro melhor que o deles, e continuem a ser benevolentes para com os "sócrates" e "salgados" que faziam aviões de papel com cheques de milhões e quase passaram a ferro o país... ao ponto de lhe chamarem "coitadinhos"... E o juiz é que é um malvado, assim como o procurador. E da cambada dos jornalistas, nem se fala...

Claro que não me apetece abanar os ombros e entrar no coro que passa o tempo a dizer que as "pessoas são o que são". É neste momento que devia meter aqui um daqueles palavrões grandes.

Deve ter sido por causa desta gente que houve alguém que resolveu fazer em Coimbra o "Portugal dos Pequenitos"...

É por isso que escrever é também sobreviver, sem passar ao lado...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, novembro 07, 2017

O Desabafo do Artista...

Hoje cruzei-me com o Louro Artur, um artista plástico almadense que é o autor  do bonito painel em azulejos que retrata a vida literária de Romeu Correia, mas que foi colocado num lugar quase escondido (rente às piscinas da Academia Almadense que estão fechadas há já mais de meia-dúzia de anos e são cada vez mais poiso de gente que gosta de destruir por destruir...).

Com todo este abandono, o painel acaba por sofrer nos azulejos algumas "pinturas de guerra" de quem é incapaz de respeitar a Arte.

Ouvi os seus lamentos, porque ele detesta (e com toda a razão...) ver a sua obra vandalizada, e apesar de ter feito chegar a quem de direito, o que aconteceu, sente que ninguém se preocupa....

Como eu o compreendo, quando ele diz que aquela obra devia estar num lugar mais visível... E até diz onde o gostava de ver (no muro junto à Casa da Cerca, rente à Boca do Vento...), num lugar de passagem, e a espreitar o Tejo...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 06, 2017

Não São só os Poetas que São uns Fingidores...


Hoje ainda vou falar dos meus livros, ainda que muito levemente, por causa de algo que eu já li em várias entrevistas, dito por mais que um escritor.

Um dos que mais vinca essa ideia é o António, o nosso eterno candidato ao Nobel.

Ele diz que assim que acaba o livro este deixa de lhe pertencer e que nunca mais o volta a abrir (menos ler). Embora eu seja um escritor de "terceira divisão", esta coisa de fazer de conta que os livros que escrevemos deixam de ser nossos (a não ser para continuar a receber os direitos de autor, os poucos que os recebem, claro...), sempre me fez confusão e me soou a "treta". Mas como somos todos diferentes, até é possível que seja mesmo assim...

O meu amigo Pereira (uso este nome que só usamos na "nossa rua" para despistar...), que é um escritor famoso do nosso burgo, também faz como eu, visita os seus antigos livros, muitas vezes com medo de se estar a repetir, porque isto de escrever livros tem muito mais que se lhe diga, que o que o senhor Rodrigues dos Santos pensa. 

E lá vou eu falar novamente do António, que também diz que está sempre a escrever o mesmo livro. Outra coisa que me deixa algumas dúvidas. Só concordo que escrevemos "o mesmo livro", por ele nascer e crescer dentro de nós, Embora escrevamos normalmente completamente "nus", as motivações, os temas, as personagens, os tempos, são sempre muito diferentes (só assim faz sentido continuar a escrever...).

Começo a divagar e depois não digo o essencial, aquilo que queria mesmo escrever: por esta ou aquela razão, volto muitas vezes aos livros antigos (mais aos ensaios que as obras de ficção), e sinto-me sempre confortável com o que escrevi, mesmo descobrindo pequenos erros aqui e ali...

(Óleo de Ludwig Von Hofmann)

domingo, novembro 05, 2017

O Dia Seguinte...


Por muitos lançamentos de livros que façamos, cada um tem a sua história.

A apresentação  do meu "Passeio Mágico com Romeu Correia" acabou por ter um significado ainda mais especial, por neste dia se realizar em Almada, praticamente em simultâneo, e organizado pela SCALA, associação da qual sou dirigente, a "Festa do Associativismo Almadense" (espectáculo de música, poesia e dança).

Isso fez com que ainda acabasse por ser mais marcante ter a Sala Pablo Neruda do Fórum Romeu Correia, cheia de amigos.

Outro aspecto não menos agradável é sentir que este livro a partir de ontem deixou de ser apenas meu (felizmente).

Agora só é preciso que ele cumpra o seu principal objectivo: apresentar o Romeu Correia, na primeira pessoa, especialmente a todos aqueles que não tiveram a possibilidade de conhecer pessoalmente o grande contador de histórias de Almada...

(Fotografia de Fernando Lemos)