segunda-feira, março 27, 2017

Hoje Festeja-se o Teatro...


Quando a actriz francesa, Isabelle Hupert diz que «O teatro é muito forte» e que «resiste a tudo, à guerra, à censura, à penúria.», fala verdade.

O teatro é também um dos espectáculos mais versáteis e que pode ter menos custos. Muitas vezes basta a vontade das pessoas... e o palco pode ser a rua, uma pequena casa, uma sala de amigos... sem precisar de ser o grande auditório.

Mas falando mais a sério, o desejável é que existam realmente condições para que os grandes criadores possam ver encenadas as suas peças, que os verdadeiros actores não tenham de ter segundos empregos para sobreviverem. 

Sou completamente contra todo o tipo de subsidio-dependência, mas sei que o teatro em Portugal não tem público (penso que se excluirmos a revista dos bons tempos e algumas peças comerciais, nunca foi uma actividade lucrativa...). As boas companhias devem ter apoio do Estado e das Autarquias, mas com a assinatura de protocolos, em que os seus elementos tenham de ir às escolas, tenham de participar activamente na educação e formação de novos públicos.

E também têm de deixar de encenar alguns textos estrangeiros, que além de não terem nada a ver com a nossa realidade, são medíocres, vivem de uma "fama"  fabricada por críticos que se acham donos do gosto de todos nós.

(A escolha desta capa não foi nada inocente. Além do teatro ser um "Amor de Perdição", estamos no ano do nascimento de Romeu Correia, grande escritor e dramaturgo almadense)

domingo, março 26, 2017

Domingo de Manhã...


Chovia mas era preciso ir à rua, pois faltava o bacon para o peixe no forno para o almoço.

E lá fui eu, passear à chuva. Desde que bem vestido, bem calçado e com chapéu de chuva, gosto de andar por ai a deambular pelas ruas, com menos gente que o habitual para um domingo de manhã, com a companhia da água que vai lavando as ruas.

Sei que enquanto caminho surge sempre alguma coisa que me faz pensar, mesmo que seja só um pouco, como aconteceu quando passei rente ao restaurante mexicano, que descubro quase sempre vazio. Desta vez olhei lá para dentro e os meus olhos esbateram nos das menina solitária que estava ao balcão. Pela forma fixa como olhava percebi que não estava ali...

Pensei que nunca ali tinha entrado para comer ou beber o que quer que fosse. Nunca fui grande adepto dos molhos picantes, mas eles deviam ter pensado nisso quando abriram a casa e a ementa também devia ter pratos mais suaves, com toda a certeza.

Muitas vezes nem sequer damos uma oportunidade aos donos... de pelo menos experimentarmos o seu serviço uma vez, para termos uma opinião formada. E é assim que muitas casas de comércio acabam por fechar...

Não vale a pena falarmos ou pensarmos nas famosas "penas", depois de terem fechado as portas... Mas não há nada a fazer, nós somos assim,  umas vezes ligeiramente, outras muito distraídos. Tantas vezes que acordamos tarde demais...

Um pouco mais à frente comprei o jornal, apenas porque sim. Sei que é um vício que ainda permanece, talvez por ter medo de um dia chegar ali e ver que só existem raspadinhas, lotarias, cigarros e outras bugigangas que as pessoas compram... e nada de jornais.

(Óleo de Suzanne Lalique)

sábado, março 25, 2017

A Magia de Cinco Efabuladoras...

Hoje assisti a uma iniciativa cultural extraordinária, intitulada, "Partilhar um Monte de Histórias", com cinco professoras que estão apostadas no regresso à tradição oral e contaram cada uma delas uma história, do género das que os nossos avós nos contavam à lareira (fui um sortudo, pois o meu avô materno era um excelente contador de histórias...).

Parabéns a todas elas, especialmente à Joaninha Duarte, a dinamizadora do projecto.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 24, 2017

As Penas das Galinhas e as Outras...


Muitas vezes é necessário escutarmos quem veio de fora, para olharmos  para a nossa realidade sem qualquer filtro: Mesmo que as suas palavras possam parecer "caricaturas", há por ali muitas coisas, mesmo pequeninas, que caracterizam essa coisa estranha que é ser-se português.

O Eric, cansado da mediocridade que o cercava, apontou a dedo a meia-dúzia de pessoas que fazia parte do "Coro dos Coitadinhos" e  andava com uma mão dada à "Senhora Inveja" e outra esticada, a ver se lá vai parar alguma coisa. Acabámos todos a sorrir, por conhecermos bem demais algumas daquelas "peças".

Por pudor ou cobardia,  nunca tínhamos feito um desenho tão aproximado daquela gente que andava sempre à espera que lhe fosse parar alguma coisa dos outros às suas mãos. Invejavam descaradamente o talento dos colegas, sem nunca se esquecerem de colocar a casca de ovo do Calimero na cabeça.

Aquela conversa foi despoletada pela utilização indevida de uma fotografia do Eric no "facebook", por uma "artista", que nem sequer se dignou a dar-lhe qualquer satisfação, como se não existissem direitos de autor nas redes sociais. O Eric não só a obrigou a retirar a fotografia, como lhe disse que roubar continuava a ser feio, mesmo que fosse um simples texto ou uma imagem, acrescentando que o que havia mais por aí eram cursos de escrita criativa e de fotografia. E era boa ideia inscrever-se, podia ser que aprendesse qualquer coisa.

A rapariga como era de choro fácil, em menos de nada fez o número da "coitadinha". Teve logo dois ou três colegas com lenços de papel a enxugarem-lhe os olhos e a destilarem "raiva" para cima do Eric, com vontade de o mandarem para a terra dele.

O Eric não foi em choros e disse que não estava a brincar. E quando ouviu os outros  falarem de pena, disse-lhes que não havia por ali nenhum galinheiro.

E eu, depois de toda aquela conversa, fiquei por ali a pensar na dificuldade que temos em chamar à razão quem não tem qualquer talento e se acha o "melhor do mundo" em qualquer coisa. Ou pior ainda, quem é capaz de usar o talento dos outros para proveito próprio, como foi o caso. Não sei se é do nosso sangue quente, sei que nos falta muitas vezes a frieza do Eric, para chamar alguns elementos do "Coro dos Coitadinhos" à razão...

(Óleo de Juan Gris)

quinta-feira, março 23, 2017

Temos Forçosamente de Viver com as nossas Fragilidades...

O dia a dia encarrega-se sempre de expor as nossas fragilidades, de nos lembrar de que massa somos feitos, das nossas contradições (por mais pequenas que sejam). Isso acontece tanto no ambiente de trabalho como no seio da família, embora aqui as coisas sejam sempre vividas de uma forma mais emocional...

Quando os problemas surgem em casa é tão fácil pensarmos que o mais fácil era não termos casado ou ter filhos (a opção de cada vez mais pessoas...). Provavelmente num misto de comodismo e de egoísmo, ainda que nem sempre o queiramos aceitar. 

Depois, mais serenos, sentimos que iríamos perder tanta coisa... Não tenho qualquer dúvida que uma vida sem família e sem filhos é uma vida incompleta (até na tal exposição das nossas fragilidades, pois eles muitas vezes são o nosso "calcanhar de aquiles"...).

Mas a vida funciona quase como um "sorteio" em muitas coisas. É por isso que não somos nós que escolhemos os nossos filhos, quanto muito moldamos-os e educamos-os pelos princípios que achamos correctos (ou pelo menos tentamos...). Mas eles também não escolhem os pais, e normalmente são os filhos que têm mais dificuldade em aceitar os pais... 

Nem sempre nos lembramos que vivemos situações diferentes, e que também temos funções muito diferentes. 

É também por isso que nunca tive pretensões de "ser o melhor amigo" dos meus filhos. Sei que ser pai é outra coisa, muito mais complicada e menos simpática...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, março 21, 2017

A Poesia num Mundo Pouco Poético...


Hoje festeja-se a poesia, a natureza, dentro da estação com mais cores do mundo.

Mesmo assim, ao folhear o quase livro onde guardo "quase todos os meus poemas", parei  no "Palhaço sem Circo", porque a realidade amarga muito mais do que parece...

Palhaço sem Circo
  
Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
Velho, cansado e sem companhia,
só lhe restasse a rua
Para vaguear e sonhar
Com a cumplicidade
E os aplausos da lua...

Assim que começava a anoitecer
Vestia a roupa gasta e colorida,
Pintava-se ao espelho do seu quarto
E depois partia de viagem
Sem destino e sem palco.

Quem parava para ver o espectáculo
Ficava quase sempre encantado
Com a magia com que pintava a avenida
Despertando pombos e vagabundos
Com a sua graça e fantasia.
  
As pessoas que passavam na rua
Voltavam a sorrir por momentos
Enquanto fazia vénias aos candeeiros,
Que iluminavam o palco da sua vida,
Pulava bancos de jardim e cantava
Extasiado com os aplausos da lua...

Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
só lhe restasse a rua
E os aplausos da lua...


(poema de Luís Alves Milheiro, óleo de Luís de Souza) 

segunda-feira, março 20, 2017

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.»

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.

Muito menos da gente que as habita  e que gosta de espreitar à janela, do lado de lá dos cortinados, mesmo que depois me ofereça sorrisos, metidos dentro do bom dia ou boa tarde.»

Eu olhei-a com um sorriso e disse:

«É por isso que vives numa grandes metrópole, sem bairros e sem gente que se preocupa um bocadinho mais que a conta com a tua vida.»

«Provavelmente...» Foi a tua resposta.

(Fotografia de Luís Eme - estes telhados do Olho de Boi não têm nada que ver com a terra em questão)

domingo, março 19, 2017

A Estreia dos "Bonecos de Luz" do Romeu

Entramos no auditório Lopes Graça do Fórum Romeu Correia e descobrimos a sala a média luz, os actores estão entretidos a jogar à bola no palco, acompanhados pelo som de uma bateria e de uma viola baixo.

Ficamos a pensar que talvez seja o "aquecimento", para os actores e para o público...

Depois iniciou-se o verdadeiro espectáculo teatral, um misto entre o musical e a comédia, mas distante do romance adaptado. Senti-me meio perdido e experimentei um sentimento de frustração no meu olhar de espectador, porque aquilo não eram os "Bonecos de Luz" do Romeu...

Mas depois do quarto de hora inicial, em que todos andámos a "apanhar bonés", a peça começou a ganhar o jeito do romance, as personagens encarnaram os seus verdadeiros papeis e além do Zé Pardal e do Biganga, apareceu o Ti Paulino, a filha, Miquelina, e os homens que levavam os "bonecos de luz" de terra em terra, o patrão Nicolau e o Lopes, o projeccionista da máquina cheia de manhas...


E ai sim, o romance passou a ser descrito com graça. Depois o Zé Pardal despiu a farpela de futebolista de rua de gosto duvidoso (com a camisola do Ronaldo que se vende nas feiras...) e encarnou a personagem do Charlot, ao vestir as roupas da viúva rica e ao calçar as botas enormes do falecido marido. E o musical e a comédia transformaram-se em drama..

Felizmente a peça acabou bem, para mim e para todos os espectadores, e a Companhia de Teatro de Almada está de parabéns pelo trabalho realizado. 

Até porque o mundo não mudou assim tanto, se olharmos apenas para as pessoas e esquecermos as "máquinas"...

(Fotografias de Luís Eme)

sábado, março 18, 2017

Dias Agradáveis no Ginjal, e em Qualquer Lugar...

Com os dias a ficaram quase grandes e este sol a brilhar e a chegar a mais lugares, é um prazer redobrado passear por aí.

Claro que esta fotografia é de quinta-feira (embora não tenha passado hoje pelas esplanadas dos restaurantes do Ginjal, não é preciso ter nenhum dedo especial, para adivinhar que estiveram cheias de gente, a aproveitar o sol e os bons ares da praia das Lavadeiras...)

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 17, 2017

«Esta vida de Cão dá cabo de mim...»


Ontem o Ginjal estava muito movimentado. Maré alta e uma mão cheia de pescadores...

Pelo caminho cruzei-me com umas ciclistas e um cão que me olhou com cara de caso à sua passagem.

De repente apeteceu-me "traduzir-lhe" o olhar. Podia ser:

«Epá, estas damas estão mesmo cheias de speed».

Ou então:

«Já viste? O dia aquece e as bonecas saem logo da toca.»

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, março 16, 2017

Fábula ao Intendente

«Eu sabia que havia muita gente que achava que me vestia como as putas, foi por isso que ao descobrir o preço das rendas de casas, acabei por decidir morar no local onde elas trabalhavam. Sim, no Intendente.

Foi um desafio e pêras. Nos primeiros tempos houve espaço para tudo, puseram-me dentro de anedotas e ofereceram-me demasiadas frases de muito mau gosto. Mas o que poupei em dinheiro compensou...

Até que o actual primeiro-ministro, então "mayor" de Lisboa, decidiu instalar-se por lá e fazer daquela zona histórica em engates e facas na ligas, num bairro quase normal.

Uma das maiores mudanças que senti foi no olhar dos homens. Senti que começaram a lavar melhor a cara de manhã, pois tinham menos sujidade nos olhos, desde a estação do metro ao trajecto que costumava fazer até à universidade.»

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, março 15, 2017

As Queridas Utopias...


Vivemos num tempo em que as ideologias dominantes querem acabar com tudo, até com a nossa capacidade de sonhar.

Continuo a pensar que as utopias nos fazem bem, especialmente quando são positivas ou trazem valor acrescido para nós, no todo.

É também por isso que acho bem que o PCP e o BE continuem a defender as linhas programáticas que sempre defenderam, apesar de hoje terem alguma responsabilidade governativa.

E neste caso particular, estes cartazes nem têm nada de utópico (excepto para os pequenos e grandes capitalistas...).

Noutros tempos, socialmente mais justos, era perfeitamente normal que a cada trabalho permanente correspondesse um contrato efectivo.

Como diria o Carlos, «não confundam cagalhões com marmelos». 

(Fotografia de Luís Eme)