quinta-feira, junho 22, 2017

Publicidade Obscena

Quando vi esta página de publicidade (paga) no maior jornal português ("Expresso"), pensei logo em guardá-la. Achei-a tão pertinente como polémica, por ser notoriamente mais um produto da "pós-verdade".

Compreendo que a Celpa (Associação da Indústria Papeleira) faça o seu papel e defenda os interesses dos seus associados. Já não compreendo que ninguém questione o conteúdo da publicidade, até por ser "enganosa", para não lhe chamar outra coisa. Muito menos que eles se assumam como "a economia portuguesa"...

Nem vou sequer abordar o facto da indústria da celulose ser o sector que retira mais dividendos dos incêndios (a par dos vendedores de equipamentos para bombeiros e das empresas que alugam helicópteros e aviões...). Vou sim questionar: como é possível um país pequeno e sem grandes recursos, gastar todos os anos milhões de euros no combate aos incêndios (muitas vezes mais do que gastaria em prevenção...), com a complacência de todos os partidos com assento parlamentar e até da Europa.

É por isso que espero que o que aconteceu às 64 vítimas do maior incêndio de que se tem memória no nosso país, signifique finalmente um ponto de viragem na política seguida pelos nossos governos, quer no ordenamento do território, quer num melhor aproveitamento dos solos agrícolas e florestais de Norte a Sul.

quarta-feira, junho 21, 2017

Um Homem Maior que o País (mesmo assim não é ouvido por quem de direito...)


Se há coisa que me faz confusão é o facto de nos últimos 40 anos, quase ninguém ter dado ouvidos à pessoa que melhor tem defendido o país em termos ambientais, sempre com propostas e respostas assertivas. Falo do arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que o site da "Visão" recuperou com grande sentido de oportunidade, uma sua entrevista realizada no Verão de 2003, em que ele diz coisas como:

«(incêndios) A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.»

«Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.»

«Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord'água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.»

Muito do que Ribeiro Telles diz quase todos sabemos, mas nunca se viu um único ministro ou secretário de Estado, a seguir as suas palavras... - alguns até são capazes de mudarem de passeio se o encontrarem na rua. Ou seja, andamos há décadas a destruir o nosso país, sem que quem exerce o poder, faça o que lhe compete: defender a natureza e o ambiente.

(Fotografia de autor desconhecido)
                                            

terça-feira, junho 20, 2017

Somos Quase Sempre Mais Esquecidos do que Devemos...


Não foi só agora que reparei, que o tempo passou por ele, e nunca foi bafejado por nenhuma homenagem, apesar de possuir qualidades humanas pouco comuns, mesmo numa cidade que se diz solidária. 

Faltou-lhe ser "camarada" (mesmo que fosse desses fingidos...), para ser olhado com olhos de ver pelo "poder". Nada que o incomode ou incomodasse...

Faltou-lhe ser "lambe-botas", andar por aí de sorriso aberto para tudo e para todos. Mas o pior foi dizer sempre tudo o que lhe ia na alma, sem se preocupar com os que o olhavam de lado, por detestarem a verdade.

O mais curioso tem sido a sua participação activa em inúmeras homenagens aos "outros" (vários deles nunca lhe chegaram aos calcanhares...). "Outros" que nunca se lembram dele..
.
É também por isso que quando olha à sua volta, sente que a sua maior medalha foi nunca ter recebido qualquer insígnia do Município.

Olho para ele e sinto que o "mundo" nunca se preparou para lhe agradecer. Sempre  gostou mais do homens agradáveis, de sorriso e palavra fácil, mas que fogem sempre que podem das  "nuvens" que aparecem no ar e cheiram a problemas...

Este mundo quase de fantasia (hipocrisia é mais real...) não gosta de quem prefere o anonimato e a sombra, quem é incapaz de distribuir sorrisos na rua, apenas por que sim, nem de quem ajuda quem necessita com discrição, ao ponto de ser capaz de fazer uma cara feia ou dizer uma frase de mau gosto, só para que não o encham de agradecimentos.

Eu sei que este é o "mundo" que temos, mas não precisava de ser tão injusto...

(Fotografia de Xavier Miserachs)

segunda-feira, junho 19, 2017

As Reacções à Tragédia do Distrito de Leiria

Sem poder dizer se isso é bom ou mau (pelo menos parece-me positivo), estou surpreendido com algumas das reacções à grande tragédia que atingiu os concelhos de Pedrogão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.  

O que mais estranhei até ao momento foi a contenção da "direita" que foi governo antes da "gerigonça", por normalmente serem bons a "jogar baixo", ao ponto de culparem os sucessores  por erros próprios (cometidos quando governavam). Provavelmente fizeram-no a pensar nas últimas sondagens (cada vez mais baixas...) e não por qualquer coisa parecida com sentido de estado ou respeito pelas vitimas.

Mesmo os comentadores ultra liberais não trouxeram muitas achas para a fogueira. Criticaram as palavras "conciliadoras" e quase "conclusivas"  do Presidente da República - com razão, até por se saber muito pouco sobre o que aconteceu... -, que mais uma vez falou demais... E também questionaram - mais uma vez, bem - o não fecho atempadamente das vias rodoviárias atingidas pelo incêndio, com os resultados que todos sabemos... 

Sem se apontar dedos, a quem quer que seja, acho que é importante abordar tudo aquilo que não correu bem (neste e noutros incêndios), e fazer-se mesmo alguma coisa, para que uma tragédia destas dimensões não volte a acontecer. Se nos limitarmos a culpar a "trovoada seca" e a "assobiar para o lado", um dia destes já não há árvores para arderem (nem mesmo eucaliptos...) neste nosso canto, demasiado quente para o meu gosto. 

Sem querer ser "moralista", sei que todos temos de mudar de atitude. Vivermos melhor ou pior, depende cada vez mais da forma como nos relacionamos com a Natureza. E é já hoje, não temos tempo para esperar por amanhã... 

(Fotografia de Miguel A. Lopes - retirada do site do "D. Notícias")

domingo, junho 18, 2017

Do Paraíso ao Inferno em Poucas Horas...

O estado de graça do nosso país abanou no dia de ontem, com um dos incêndios mais mortíferos que se conhecem, no nosso território.

Sempre que acontece uma desgraça, uma das palavras que mais se utiliza para justificar o injustificável é Destino. É uma palavra quase com capacidade para "embrulhar" todas as desgraças do nosso dia a dia, pelo seu sentido quase divino, capaz de ultrapassar a vontade dos "mortais".

Embora não existam muitas palavras para dizer ou escrever o que quer que seja, sobre o que aconteceu ontem, incomoda-me que se utilize no nosso país, vezes demais, as palavras destino e saudade (fora das letras do fado...), para "fecho de contas".

Neste caso particular, se fosse utilizada com um carácter prático (fora dos discursos de Verão dos políticos...), a palavra Prevenção, sei que não se estariam a chorar todos estes mortos...

(Fotografia retirada do site do "D. Notícias")

sexta-feira, junho 16, 2017

«A mulher ideal é a mulher que não existe.»


Há muito tempo que não escutava um homem a falar com tanta sapiência das mulheres. Provavelmente ele pensa que os cabelos brancos de quem já passou os sessenta e o ar de galã de telenovela mexicana que faz questão de manter, lhe dão autoridade para nos oferecer tantas generalidades.

Houve um momento que não consegui conter o riso, quando ele disse que continuava a ser tão fácil apaixonar-se como desapaixonar-se. Pensei no bom do Vinicius de Moraes, que também tinha uma grande facilidade em saltitar de amor em amor. Mas ele era quase um "deus", graças ao bom uso que dava às palavras e, que depois oferecia às suas musas...

No meio da conversa o nosso homem ia olhando com alguma galhardia para as mulheres bonitas que passavam por nós.

Quando começámos a olhar para o relógio, quis ir ainda mais longe, quando disse: «Quanto mais mulheres conheço, mais fácil é apaixonar-me. Há sempre uma mulher capaz de me surpreender e de me ensinar coisas novas. É por isso que digo que a mulher ideal é a mulher que não existe. Existem dúzias e dúzias, todas diferentes, e ainda bem.»

A caminho da sala de reuniões, fomos conversando sobre o "charmoso" que nos tinham oferecido numa "rifa" (era dono de uma das empresas que nos "pagavam"...), fazendo aparecer vários animais no diálogo, desde o "tigre", ao "papagaio" passando pelo "leão" e acabando no "galo".

Antes de entrarmos, ainda olhamos uns para os outros, meio tristes, por sermos quase naturalmente, homens de uma só mulher, e cada vez mais distantes das histórias de mulheres ideais. Encarámos a realidade com desportivismo, pois se por um lado ainda estávamos a vários anos da idade do "balzaquiano", por outro também estávamos a vários zeros de distância da sua conta bancária...

(Fotografia de Tony Vaccaro)

quinta-feira, junho 15, 2017

Ai que Saudades da Frescura do Oeste...

Não há muitos sítios que nos permitam escapar a esta "febre marroquina", que quer transformar a Península Ibérica quase numa espécie de "áfrica europeia", por muito que isso possa agradar a alguns turistas que adoram torrar a pele, sem precisar de visitar as praias de mar.

Tenho saudades do meu Oeste, do microclima que faz das Caldas da Rainha um lugar um pouco mais ameno e de a Foz do Arelho uma praia fresca, mesmo no Verão...

E sem precisar de ir tão longe, nas redondezas de Sintra também é possível escapar das temperaturas altas...

É caso para dizer: benditas Serras de Sintra e de Montejunto.

(Fotografia de Luís Eme - se o tempo continuar assim, vai haver mais moçoilas de biquini pela cidade...)

terça-feira, junho 13, 2017

O Calor e o Frio, a Escrita e a Leitura...

Com estes dias "marroquinos" acabo por constatar o óbvio. Escrevo mais com o frio, leio mais com o calor...

Acho que este calor, além de me "toldar" as ideias... amolece-me quase tudo, até os dedos que são de escrever...

É por isso que procuro uma sombra, sento-me num soalho fresco e leio as folhas dos livros...

Não sou como ela, que lê à beira Tejo, ao mesmo tempo que espera que o Sol lhe pinte a pele...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 12, 2017

Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»


Não sei porquê, mas começou-se a falar de televisão. Sabia que era chover no molhado, porque quando conversamos sobre a programação dos canais da televisão, dificilmente chegamos a alguma  conclusão. E o único consenso que aparece, deve-se à qualidade, porque muito poucas coisas parecem fazer sentido dentro e fora da "caixa mágica".

E eu lá me lembrei de um amigo que andou pela televisão pública mais de 30 anos e que me dizia meio a sério meio a brincar: «Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»

Eu sei que a RTP tenta fazer a diferença (nota-se mais nos últimos tempos...), mas acaba quase sempre por apanhar os mesmos atalhos dos outros, em nome das audiências... Aliás tudo o que se faz em televisão tem como desculpa, as famosas audiências...

Durante uns tempos as gentes das televisões diziam que andavam atrás do gosto das pessoas. Talvez ainda mantenham o mesmo discurso, embora gostem mais de estar à frente dos "consumidores", porque fingem que são "mágicos" e conseguem adivinhar o que o pessoal quer ver.

Hoje é tudo mais descarado, no condicionamento do gosto e na manipulação de notícias. Os censores das ditaduras eram uns "anjinhos" em relação aos programadores do nosso tempo...

domingo, junho 11, 2017

A Língua, o Estilo e a Escrita...

Estou a ler um livro que tem tanto de curioso como de estimulante ("A Sétima Função da Linguagem - Quem matou Roland Barthes?", de Laurent Binet), que me tem feito pensar sobre várias coisas, inclusive sobre esta coisa que é o escrever. 

Vou transcrever essa parte:

«Roland Barthes mostrou é que no fundo uma obra literária tem três níveis; há a língua - Racine escreve em francês, Shakespeare escreve em inglês, essa é a língua - há o estilo; esse é o resultado da sua técnica, do seu talento, mas entre o estilo - voluntário, pois controlamo-lo - e a língua! Há um terceiro nível que é; a escrita. E a escrita, dizia ele, é o lugar... do politico, no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, a sua origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia...»

Concordo com Barthes, penso que estas três divisões definem o essencial do que deve ser um fazedor de livros.

(Óleo de Costa Pinheiro)

sábado, junho 10, 2017

A Arte com Imagens e Palavras...

Participei  hoje à tarde numa sessão cultural que me deu a sensação de ter sido extremamente enriquecedora e agradável para todos aqueles que apareceram na sede-galeria da SCALA.

Não se tratava apenas da inauguração de uma exposição de artes plásticas, havia também o atractivo da projecção de seis pequenos filmes sobre a vida e obra do autor,  Mártio, um artista plástico almadense, que depois seria seguida de uma conversa informal sobre, e com, o pintor e ceramista possuidor de uma obra bastante vasta e diversificada.

E foi esta conversa que se revelou de grande interesse para todos, graças à disponibilidade do Mártio para falar abertamente do seu percurso artístico, dos seus dois principais interlocutores, que o ladearam, mas sobretudo pela interacção que se proporcionou com todos aqueles que quiseram saber mais qualquer coisa sobre a arte, ou ainda, de oferecerem o testemunho da sua experiência pessoal no mundo das artes.

(Óleo de Mártio - as "Banhistas" de Mártio, glosando as "Banhistas" de Cezanne...)

sexta-feira, junho 09, 2017

O Cacilheiro e os Dois Amigos do Sul...

Estava a olhar o Rio da janela do cacilheiro quando duas vozes maduras atrás de mim me chamaram a atenção.

Pelo jeito de falar percebi que eram alentejanos e falavam de uma mulher qualquer como se fossem dois adolescentes. Não tinha um nome, era apenas a "magana", como às vezes escutamos em anedotas.

Um deles gabou-se de dançar com ela numa festa, acrescentando que foi cá uma esfrega, ao mesmo tempo que o marido emborcava copos de vinho no bar. O outro para não ficar atrás contou um episódio romanesco que aconteceu num café, em que ela se ofereceu quase toda.

A conversa só acabou quando a barca laranja chegou a Cacilhas e os dois sessentões desapareceram no meio da multidão que se deslocava na direcção das paragens dos autocarros.

Não me lembro de ver dois homens de cabelo esbranquiçado a conversar com tanto entusiasmo de uma "magana", que era do clube das  "frescas" (foi outra das palavras mais batidas no diálogo quase quente), pelos exemplos relatados...

(Fotografia de Luís Eme)