quinta-feira, maio 25, 2017

Uns Dias de Secura e Outros de Grandes Bebedeiras...

Hoje faço como alguns jornais, coloco um título que pode ser tudo, mesmo que depois de espremido, seja quase nada.

Estes meus dias de secura ( e de grandes bebedeiras...), não têm nada a ver com bebidas, com mais ou menos álcool. É apenas mais uma metáfora da vidinha...

Falo sim desta "doença" que é o escrever. Nos últimos tempos tenho escrito pouco.  Claro que não estou a falar da quase ligeireza diaristica com que vou escrevendo na blogosfera. Falo sim das ideias mirabolantes que surgem do nada e que são capazes de encher uma folha A4 em menos de cinco minutos, como me aconteceu hoje, ainda antes das oito da manhã. Muito por culpa das personagens, que devem entrar pela janela, que já estava ligeiramente aberta, para que o Verão não ficasse apenas pela rua...

Depois de tudo o que escrevi logo no começo do dia, fiquei a pensar que o  normal era não me apetecer escrever. Ainda por cima as minhas palavras estavam cheio de moralismos... 

Talvez fosse boa ideia deixar de "beber", mas há coisas que não controlamos mesmo.

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, maio 24, 2017

O Amor é Outra Coisa...


É no mínimo estranho o que as pessoas inventam em nome do amor. Não só dizem que amam, mais vezes do que deviam, como são capazes de fazer as maiores loucuras em seu nome.

Pensar que a maior parte dos crimes de violência doméstica são feitos em nome do tal amor, que é sempre outra coisa, posse, medo, ilusão, mentira, e sobretudo, loucura... Sim, a maior parte destas pessoas, que são capazes de tudo em nome do amor, era desejável que habitassem apenas dentro dos livros e dos filmes. E todas as que circulam por aí, à solta, deviam, no mínimo, ser internadas num hospício. 

Embora perceba, que nestes tempos ainda de austeridade, não existam quartos para todos...

(Fotografia de Yousuf Karsh - crónica a pedido, sobre "amores estranhos".  E como vês, consegui fugir da "moda" de amar os animais como gente, e ainda me sobraram duas linhas...)

terça-feira, maio 23, 2017

Um Mundo Sem Conserto...

Nada do que possa dizer faz muito sentido, neste mundo farto em lugares onde se vive um dia de cada vez...

E se há coisa que não quero hoje, é armar-me em moralista, até por saber que cada vez devemos esperar menos dos "animais inteligentes", que sempre preferiram o lado errado da vida, mesmo quando saiam à rua com uma auréola em cima da cabeça e enchiam a boca de palavras bonitas.

Bem diz o povo sábio, que de bons intenções está o inferno cheio.

Alguns portugueses continuam a assobiar para o ar, fingem acreditar na Senhora dos milagres de Fátima e esquecem-se que o "cerco a Lisboa" também há-de chegar, mais tarde ou mais cedo...

(Óleo de John Bowen)

segunda-feira, maio 22, 2017

Os Ganhos e as Perdas na Cultura


O Zé disse-me, com um sorriso nos olhos, que a ausência de dinheiro fácil está a expulsar os oportunistas do mundo da cultura. Não sei se é bem assim.

Ele pode ter razão quando diz que nunca se ganhou tão pouco dinheiro a cantar, a tocar, a pintar, a filmar, a fotografar ou a escrever. É ligeiramente mais novo que eu, ou seja ainda é do tempo em que se vendiam discos pequenos e a internet era uma incógnita, olhada de lado por uns e quase um sonho para outros.

Mas também se devia lembrar que nunca houve tanta gente a acotovelar-se e a querer ser alguém nas culturas...

Claro que ele conhece melhor o meio que eu. Fez parte de boas bandas da Margem Sul graças ao seu talento como guitarrista. Depois começou a produzir, onde ainda continua... 

Consumidor cultural e companheiro de uma realizadora de filmes (cada vez mais de publicidade...), conhece muita gente e oferece-me exemplos. Artistas plásticos que trabalham quase exclusivamente com os computadores, porque não lhes apetece sujar as mãos e andar a gastar dinheiro em telas e tintas. Poetas que escrevem em blogues e oferecem os poemas em folhas soltas aos amigos. Músicos que são vendedores de qualquer banha da cobra, empregados de bares e até seguranças em jogos de futebol. Fotógrafos que circulam à volta das estrelas das telenovelas e do futebol, trabalhando à peça. Dos filmes tem o exemplo da Catarina lá em casa.

Eu limitei-me a recordar-lhe que quando o dinheiro voltar, eles regressam (se é que se estão a afastar)...

(Fotografia de Alberto Galducci)

domingo, maio 21, 2017

Jogos de Diferenças...


Um casal de meia idade que já não via há uns dias largos, quis saber coisas de mim e da minha família. Falei-lhes do último "pesadelo" cá de casa. O homem maduro disse: «O tamanho dos problemas revela-se sobretudo na forma com os enfrentamos.»

Eu sabia que era assim. Até por não ser muito melodramático em relação a tudo o que nos cerca.

A esposa argumentou que nem sempre era assim. Mas claro que era, e é. A forma de encararmos os problemas (sem fugir deles...) e de os tentar resolver da melhor maneira, ajuda sempre.

Quando vinha para casa pensei na minha capacidade de abstração (o que irrita muito boa gente...), do facto de raramente ficar a matutar nos problemas,  de tentar dar sempre um passo em frente.

Ao começo da tarde, antes do início da tertúlia em que estava envolvido, uma mulher veio-me com a história de que os homens só sabem fazer uma coisa de cada vez, dando como exemplo o marido. Respondi que por acaso eu consigo fazer duas ou três, mas nunca a dúzia das mulheres... deixando-a  em silêncio com cara de caso.

Mas acho que sim, temos várias características que nos distinguem. Esse facto de que tanto as orgulha, de fazerem muitas coisas ao mesmo tempo, também lhes altera completamente o sistema nervoso. E é por isso que não conseguem ultrapassar os problemas da mesma forma dos homens (sei que algumas dizem que isso acontece por irresponsabilidade, mas é muito mais que isso...).

Embora cada caso seja um caso, nestes "jogos de diferenças"...

(Fotografia de Robert Doisneau)

sábado, maio 20, 2017

A Arte Enquanto Espaço Criativo e Espaço de Sobrevivência...

A meio da semana encontrei-me com um amigo pintor, que já leva muitos anos de pinturas e de exposições. Um dos traços mais marcantes da sua personalidade é a exigência que tem para cada obra, basta não gostar de um pormenor do que está a pintar, para rasgar o que faz e colocar no lixo (tenho algumas obras dele, que salvei do "caixote"...).

Falámos de muitas coisas, inclusive do mercado de arte, que mudou muito nos últimos anos (há cada vez mais dificuldade em vender obras de arte... a excepção devem ser os grandes artistas, cujas obras continuam a atingir valores recordes em leilões).

Foi nesta altura da conversa que falei dos muitos artistas de rua, que enchem as ruas de Lisboa de "cópias" de eléctricos, ruas de Alfama, que vendem a presos irrisórios. Achei curioso ele não ter utilizado nenhum adjectivo negativo para qualificar estes vendedores de pinturas, que são outra coisa, que passa um pouco ao lado da arte.

Até me falou do exemplo de um pintor amigo, que pintava os quadros quase todos iguais (isto ainda antes de Abril...). Quando lhe disse que isso o reduzia como artista, este argumentou que antes de ser artista era chefe de família. Ou seja, como se dedicava exclusivamente à pintura, pintava o que lhe encomendavam das galerias, ou seja o que era mais procurado e se vendia (as ruas típicas de Lisboa). Porque sem este dinheiro não conseguia sobreviver. O artista das obras originais aparecia depois...

Com este argumento  o meu amigo ficou sem palavras.

Óleo de Ralph Hedley)

sexta-feira, maio 19, 2017

A Mulher que é Sempre Notícia no Bairro...

A tua janela nunca se abre.

É como o teu rosto, que já se deve ter esquecido do que é sorrir.

Quem pensa que te conhece, conta uma história. Fala de várias coisas que acabam sempre com um amor não correspondido.

Outras mulheres, do grupo raro que ainda conversa na mercearia, vão ainda mais longe, acrescentam à tua mágoa, um filho perdido.

Comentam também a tua magreza. Umas falam de fome, outras de ausência de apetite, e as que lêem revistas com ficções, de anorexia.

A única coisa que não consegues é ser invisível.

Seja pela janela que nunca se abre, pelo teu rosto fechado, por um amor não correspondido, pela mágoa de um filho perdido ou pela magreza, és sempre notícia no bairro...

(Fotografia de Judy Linn - Patti Smith)

quinta-feira, maio 18, 2017

Coisas da Poesia e dos Poetas do Nosso Contentamento...

Podíamos estar a tarde toda a falar de poesia e de poetas, não apenas do que escrevem, mas também do que nos fazem sentir. Embora um dos momentos mais pitorescos da conversa tenha acontecido quando contámos pequenos nadas, curiosos, daqueles que fazem sorrir...

Eu também tinha um, passado com o Zé Gomes Ferreira, no qual tive a ousadia de confundir a sua arte, na primeira vez que nos cruzámos ao vivo, num Primeiro de Maio das culturas. Quando me perguntaram se conhecia o homem com ar feliz, de cabeleira branca farta e quase despenteada, que passou por nós e me piscou o olho, fiquei a pensar. E a primeira pessoas em quem pensei foi no Leonard Bernstein, que era visita assídua na televisão (quando o nosso mundo era só RTP e a preto e branco, a "caixa mágica" oferecia-nos música da boa, mesmo que nessa altura não morresse de amores pela arte sinfónica, ao contrário do pai, que escutava deliciado, o homem que não conseguia estar quieto e também usava uma excêntrica cabeleira branca...). Foi por isso que disse que ele não me era estranho, perguntando de seguida se era maestro.

Não, era poeta, e dos militantes, disse-me a Teresa com um sorriso rasgado. E eu nessa altura até já tinha lido "O Mundo dos Outros" e até tinha gostado daquela linguagem de quem finge que anda por aí distraído, mas vê tudo.

Ainda nos encontrámos uma ou outra vez, a última foi no Chiado, talvez em 1981 ou 82. Apeteceu-me mesmo dizer-lhe um «olá Poeta», mas senti que ele estava completamente absorvido por algo que se passava a metros (ou quilómetros...) dali. Já nesse tempo evitava ser inconveniente.

Talvez o grande Zé Gomes estivesse naquele preciso momento dentro de um poema...

(Fotografia de autor desconhecido, com Zé Gomes Ferreira bem acompanhado, na festa do Avante de 1977, com Mário Viegas, outro grande amante da poesia e dos poetas e com a actriz Fernanda Lapa, digo eu...)

quarta-feira, maio 17, 2017

As Pessoas que Gostamos de Ver e as que Precisamos de Encontrar...


A vida vai tornando as ruas cada vez mais longas, afastando-nos inevitavelmente de esquinas e lugares onde sabemos que podemos encontrar a Etelvina ou o Serafim (escolhi estes nomes porque ofereço-os muitas vezes à minha filha e ao meu filho...), e até a Miquelina...

Lembrei-me disto depois de receber o telefonema de um amigo que também escreve livros, a reclamar, por eu nunca aparecer, entre outras coisas.

Foi então que dei por mim a separar as pessoas de quem gostamos em dois grupos: as que gostamos de ver e as que precisamos de ver. As do primeiro grupo, normalmente são de boa memória, mas sabemos que podemos encontrá-las em qualquer altura, nunca é uma urgência. O precisar é diferente, muitas vezes é para ontem, até conseguimos desmarcar coisas só para estarmos com estas gentes especiais, capazes de nos encher a alma e fazer sorrir até aos dramas...

Ainda de volta ao telefonema, que me fez pensar nestas coisas, embora goste deste prosador de mão cheia, não me senti nada confortável com a última conversa que tivemos, com mais três personagens também ligadas aos livros, até por me sentir forçado a defender o alvo de todos os ataques (a maior parte deles injustos...), que conheci na época em que escrevi o meu primeiro romance e que se revelou um bom companheiro. Além de me dar várias sugestões para melhorar o livro, apresentou-me vários escritores e ia-me falando de livros que tinha gostado e que eu devia ler.

Naquele momento não pensei no editor ou no antigo secretário de estado da cultura. Pensei apenas no homem simples e bonacheirão (tem a minha idade mas sempre pareceu mais velho, mesmo hoje ainda me leva uns "seis" anos de avanço...), com quem troquei tantas ideias sobre futebol, jornalismo e livros...

Sei que o meu amigo não levou a mal as minhas palavras, por saber que detesto injustiças. Agora os outros três fulanos, que têm de ter algum cuidado para não morder a língua, devem ter-me pintado de todas as cores, depois de os deixar na mesa de café a "pintar mais mantas". É por isso que me telefona e me fala do que está a escrever e quer saber coisas de mim...

Um dia destes a gente encontra-se. Mas não precisa de ser hoje...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, maio 15, 2017

A Velha Mouraria do Luís e do Modesto


Os meus amigos, Luís Bayó Veiga e Modesto Viegas vão apresentar na FNAC do Chiado mais uma das suas produções multimédia, desta vez, "Recordando a Velha Mouraria".

A não perder por quem gosta de imagens com história. 

domingo, maio 14, 2017

Sábado Escrito com "Três Éfes"...


É impossível não dizer nada sobre o dia de ontem, um sábado escrito com "três éfes".

Como devem ter lido por aqui, muito antes de sábado já estava "intoxicado" com  Fátima. Isso não tem nada que ver com o Papa Francisco, de quem é difícil não gostar (tal como acontecia com João Paulo II), devido à forma simples e directa com que fala de todos os problemas que nos rodeiam. Tem a ver sobretudo com uma igreja que continua a alimentar "milagres" e "segredos", que nem sequer dão grandes histórias de ficção...

O segundo éfe foi sobretudo agradável para mim e para todos os benfiquistas. O Benfica sagrou-se campeão nacional e conquistou pela primeira vez na sua história quatro títulos consecutivos. Mas não me agradou apenas por ser o meu clube, agradou-me por nunca ter assistido a tantas manifestações de mau perder por parte dos responsáveis do Sporting e do FC Porto, colocando tudo e todos em causa, semana após semana. Estes últimos até baptizaram o campeonato de "liga salazar"...

Mas o mais surpreendente (e até mais saboroso) acabou por ser o último "éfe", não de fado, mas de "festival" (da eurovisão), com a vitória de Salvador Sobral, um rapaz calmo e simples (que grande conferência de imprensa!), que encantou a Europa com uma balada, bela e sentida, cantada em português...

(Fotografia de Nino Migliori)

sábado, maio 13, 2017

Ir a Nova Iorque e Voltar...


Se tivesse o dinheiro que pedem por um quarto de hotel em Fátima, à mão, ia passar o fim de semana a Nova Iorque. E antes de aterrar, era menino para pedir a bênção à Liberdade...

(Fotografia de Ed Clark)