segunda-feira, janeiro 15, 2018

Olhar e Pensar, quase Duas Vezes...


A batalha mediática das actrizes contra o "assédio", mesmo sem quase darmos por isso, já começa a influenciar o nosso olhar de "faunos".

Eu por exemplo, já dei por mim a olhar para uma mulher bonita na rua e pensar em ser o mais discreto possível. 

Tudo isto porque se escreve e fala diariamente de uma forma excessiva sobre a questão. E cada vez se mistura mais a sedução com o assédio, e um dia destes só pode ter como resultado a criação de mais um problema, quase de "identidade sexual", masculina ou feminina...

O meu amigo Gui, que já andou a "pregar pregos" em Hollywood, diz que isto é tudo postiço, acrescentando que as grandes vitimas de assédio na "meca do cinema" são os homens jovens e não as actrizes, explicando que uma boa parte dos poderosos do mundo do cinema, em relação ao sexo, prefere outros homens. As actrizes bonitas e badaladas são usadas preferencialmente para ficar na fotografia...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 14, 2018

Lá Voltam os Espelhos...


Dos poucos amigos que tenho, dois são bastante radicais e excessivos. Isso acontece porque não só se estão borrifando para o "politicamente correcto", como são incapazes de tolerar hipocrisias e cinismos. 

Ficam muitas vezes mal na fotografia. Mas não é nada que os incomode muito, diga-se de passagem.

Eu que também não sou das pessoas mais "moldáveis", noto que ao pé deles passo quase por um tipo "tolerante". Isso acontece sobretudo por saber (por experiência própria...), que "partir louça" normalmente não resolve nenhum problema (às vezes ainda os agrava mais...).

Muitas vezes chamo-lhes "revolucionários" e "anarquistas", e mesmo sabendo que têm razão em muitos pontos de vista, tento puxá-los até às linhas do razoável. Sei que não lhes posso dar demasiada força, porque estes tempos não estão para "revoluções" e exigem mais inteligência e esperteza que o normal para lidar com o coro de "hipócritas e cínicos", que nos abordam quase sempre com sorrisos e palminhas nas costas...

Estes dois bons "radicais" têm ainda outra particularidade, quando são amigos são mesmo a sério, nunca falham (claro que acontece exactamente o contrário com os "inimigos", mas estes que se danem, como diz o outro...).

(Óleo de Franz Van Stuck)

sábado, janeiro 13, 2018

«Há quem lá vá quase só pela simpatia...»

Eu defendia que ser competente e justo, era mais importante que outra coisa qualquer, quando estamos à frente de qualquer projecto ou instituição. Estava a esquecer-me da simpatia...

O Gui abanou a cabeça, puxou de um cigarro acendeu-o e deu uma passa para o ar... E só depois é que foi buscar um bom exemplo: «porque razão é que vamos à tasca do Alfredo comer qualquer coisa? É pelo preço, pela higiene ou pela beleza e conforto do espaço?»

Exclamei que ele estava a dar-me um mau exemplo. Voltou a abanar a cabeça e disse: «Meu caro, há quem lá vá quase só pela simpatia.»

Embora ele se afastasse ligeiramente da conversa, não deixava de estar certo. Quem está de fora e não conhece o quotidiano de qualquer lugar, dá sempre uma grande importância à primeira impressão, onde a simpatia ganha a todas as outras "competências".

Pois é, Gui, tens toda a razão. Ser competente e justo, é bom para a instituição e para quem lá trabalha, mas diz muito pouco aos "consumidores" (que ainda por cima nem fazem muita questão de andar bem informados)...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Os "Nossos Espelhos Humanos"...


Nunca te disse, mas tu és uma das raras pessoas que funcionam quase como se fossem um espelho, olho para os teus olhos e ando por lá... E o resultado são quase sempre diálogos mais intimistas, mas também mais transparentes, honestos e irónicos.

Não é por acaso que isso acontece mais contigo do que com outras pessoas, e é bom. 

Sou mais vezes transportado quase para dentro de ti, experimentando as mesmas sensações que te percorrem e enchem de dúvidas e de inseguranças...

Pois foi, a vida pregou-nos mais uma partida. Mais uma entre tantas...

Pensávamos que os anos nos iam "roubando as "dúvidas" e a "insegurança", mas não, ainda nos "carregam" com mais uma ou outra, apenas porque sim.

O que nos vale é aquilo que chamamos "experiência de vida", que nos ajuda a lidar (e até a sorrir...), com as muitas matreirices que gostam de aparecer depois das esquinas.

(Fotografia de Brassai)

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Quando a Amizade Vale "Ouro"...

Hoje fez-se história nas Caldas da Rainha, a bonita cidade onde cresci e onde volto sempre que posso, para abraçar a minha mãe e o meu irmão.

O seu clube mais emblemático, o centenário Caldas Sport Clube, venceu o Farense e "carimbou" a sua passagem para as meias-finais da Taça de Portugal, onde segundo consta vai defrontar o D. Aves.

O meu irmão depois de assistir à vitória do Caldas com a Académica, desafiou-me a marcar presença no jogo dos quartos de final, com o Farense. Eu disse logo que sim... Nem fazia ideia de há quantos anos não via um jogo de futebol no velho Campo da Mata, onde também joguei algumas partidas pelas equipas de iniciados e juvenis, no tempo do pelado...

Mas não há bela sem senão. Ou seja, acabámos por facilitar (pela tal falta de hábito de ir ao futebol, por ser um dia da semana e por estar "mau tempo no canal"...) e só pensamos adquirir os bilhetes no dia do jogo... E quando chegámos o aviso nas bilheteiras fechadas dizia tudo.


Falámos com alguns amigos para ver se havia alguma possibilidade de nos arranjarem algum bilhete... foi quando um velho amigo dos tempos de escola, que não via há uns bons trinta anos, foi em busca de outro amigo comum, ligado ao Caldas (que também não via desde o século passado...), que nos ofereceu dois convites... E fez com que valesse a pena vir de Almada até ao Oeste, para ver o Caldas...

E depois foi muito bom assistir a um excelente jogo de futebol, com as bancadas repletas de gente a vibrar, quase em sintonia com as duas equipas, que jogaram bem melhor que algumas da Primeira Liga...

Percebia-se que o Farense era uma equipa mais experiente e matreira, mas a juventude e irreverência do Caldas podia fazer miséria... E fez.



Esteve a perder um zero, dois a um, mas os seus jogadores nunca desistiram, tal como o público, e o três a dois, acabou por chegar no prolongamento, com justiça.

Desta vez não houve grandes penalidades, mas se houvesse, acredito que a vitória nos sorriria de novo...

E ficou mais uma vez provado que a amizade vale ouro e perdura no tempo...

(Fotografias de Luís Eme)

terça-feira, janeiro 09, 2018

A Importância Social das Telenovelas

Há vários anos que as telenovelas brasileiras transportam para a televisão - e para a discussão pública - alguns temas "tabu" da sociedade. Foram eles que mostraram os primeiros casais homossexuais às claras nas suas "tramas", no início de uma forma tímida, que hoje são aceites com normalidade nos seus guiões. E é esse valioso contributo que dão para a sua discussão, e até aceitação entre as pessoas de todos os estratos sociais, mesmo que nem sempre se pense com seriedade no assunto, que me interessa trazer para aqui.

A telenovela brasileira  que a SIC transmite à noite (só não sei o título porque sempre fui péssimo em decorar nomes de livros, filmes, peças...), é mais um bom exemplo da utilização positiva de um tema cada vez mais pertinente, que é abordado de uma forma muito feliz: o drama dos transexuais (a sua aceitação - ou não - pela própria família e todo o transtorno emocional que provoca) com a qualidade reconhecida dos actores brasileiros...

E fico muito feliz por uma telenovela ter uma importância superior a mil crónicas doentias de gente do calibre do arquitecto Saraiva, que provavelmente ainda pensam que a homossexualidade é uma doença, curável (nem que seja com tratamentos à base dos choques eléctricos...).

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)

segunda-feira, janeiro 08, 2018

O Bailado das Gaivotas...

Uma das coisas que gosto do mar é a sua "voz". Essa mesmo, de quem parece estar chateado com o mundo...

Desde a minha infância que me habituei à voz do mar na "praia da minha vida", a quase selvagem Foz do Arelho.

Ontem passeei pela Costa de Caparica a meio da tarde.  Encontrei um Oceano um tanto ou quanto revoltado, mas nada que se parecesse como o mar da minha praia (a voz é diferente)...

Mas gostei do "bailado das gaivotas"...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 07, 2018

A Educação do Olhar...


Nós somos o que nos deixaram ser, em quase todos os ângulos da vida, se esquecermos essa coisa que chamam "genes", que já herdámos de quem nos mandou "vir de frança" (de pais, avós, tios e até bisavós, que a maior parte das vezes não conhecemos...).

Toda esta introdução quase "biológica" porque o texto de ontem por estar ligado ao de hoje. Tive uma conversa que foi quase uma entrevista, sobre as coisas da cultura. Falámos muito de livros, de cinema e de teatro.

Parámos no cinema, e depois no teatro. A questão que ficou presa à "arte de talma", foi o facto de ela nunca ter chegado ao grande público, ao chamado "povo". As únicas excepções foram o teatro de revista (as peças chegavam a estar mais de um ano em cena, com lotações esgotadas, e era comum virem excursões da província assistir aos grandes êxitos) e o teatro de feira (quase sempre com a magia do manuseamento das marionetes...).

E lá apareceu o "umbigo" de alguns encenadores e autores (pseudo-intelectuais...), que adoram ser chatos e encenar peças que nem eles próprios percebem muito bem o sentido, deixando quase sempre a diversão de lado, que na minha opinião nunca devia estar distante dos palcos. Quando falo de diversão não estou de maneira nenhum a "exaltar" o teatro brejeiro e de riso fácil. É bom (para mim é o melhor...) quando saímos de uma sala de teatro ou de cinema, a pensar, porque voltámos a sentir algumas "dúvidas existenciais". Da mesma forma que é saboroso sairmos com um contentamento interior, que nem precisa de nos fazer sorrir. Basta que nos faça pensar: «Que grande peça!» «Que grande filme!»

Começo a escrever e depois esqueço-me do que queria dizer...

Eu sou da geração da televisão e do cinema. Cresci com a sétima arte, na infância vi quase todos os clássicos da Disney, assim como o burlesco mudo do Charlot e de Keaton, mas sem colocar os pés numa sala de teatro (isto de se viver na província é mais complicado do que parece...), pela sua ausência, especialmente de teatro infantil (onde tudo começa...).

E foi esta a educação do meu olhar...

sábado, janeiro 06, 2018

Vidas que Dão Filmes, Filmes que Dão Vidas...


Sim, é verdade (provavelmente estou a repetir-me...), o cinema possui todas as nuances para funcionar como o espelho das nossas vidas. Tem a vantagem de não estar circunscrito a um palco, como sucede no teatro, ou apenas à imaginação do escritor, como acontece com os livros.

Pode utilizar o espaço e tempo de uma forma quase infinita, com guiões e personagens que se confundem com as do mundo que nos rodeia, ao ponto de ficarmos confusos e não sabermos muito bem (tal como na vida...), onde acaba a ficção e começa a realidade.

O mais curioso é sentir, à medida que o tempo passa, que esta fronteira é cada vez mais ténue.

Se por um lado sinto que há personagens da vida real que se inspiram nos filmes, para quase tudo, desde coisas simples como a forma como se vestem, como circulam nas ruas ou dialogam com os outros, a coisas mais complicadas, como ser "capa de jornal" pelos piores motivos. Por outro lado descubro na tela gente que podia muito bem saltar da fita para as ruas, pois são mesmo gente como nós...

sexta-feira, janeiro 05, 2018

«Vaca é a tua mãe, ó meu cabrão de merda!»

Ontem ao fim da tarde assisti a uma cena digna de um filme felliniano.

Ainda vinha ao longe e já estava a ouvir um carro a apitar. Quando cheguei à caixa do multibanco percebi que era uma viatura que queria sair e estava "tapada" por uma carrinha de alguém que vendia cafés, e não deveria estar muito longe...

Estive à espera na caixa uns três minutos (o senhor queria levar o dinheiro todo...). E só quando me vinha embora é que vejo um sujeito com dois rapazolas a aproximar-se da carrinha. Os rapazes entraram mas o homem não deve ter gostado da buzina do carro, e em vez de pedir desculpa pelo incómodo ainda foi tirar satisfações.

Pela forma como mexia os braços percebi que não estava a ser muito meigo. Normalmente nem sequer me aproximava da discussão, mas reparei que era uma mulher que estava dentro do carro, Um homem mais ou menos da minha idade, atento ao que se passava, também se começou a aproximar (acabámos por dar força um ao outro...). Quando chegámos ao pé do carro o "valentão" calou-se e assim que o meu companheiro de aventura perguntou à condutora se havia algum problema, ele começou a afastar-se sem palavras. Ela exaltada respondeu que havia, mas que ia já deixar de haver, e saiu do carro, virando-se para o homem que já estava a "bater em retirada": «Oiça lá!»

O homem parou e esperou-a em posição de desafio. Quando ela ficou frente a frente, surpreendeu tudo e todos, ao dar-lhe um chapadão daqueles que fazem eco (bem merecido...), atirando-lhe logo de seguida: «Vaca é a tua mãe, ó meu cabrão de merda!»

O homem ficou paralisado por uns segundos, agarrado à cara. E nós aproveitámos esta pausa para fazer escolta à mulher para junto do carro.

Contra todas as previsões, o "herói" enfiou o rabinho entre as pernas, entrou na carrinha e desapareceu o mais rápido que pôde da praça.

Depois cada um de nós seguiu o seu caminho, quase sem palavras.

Quando vinha para casa não consegui esconder a satisfação, por me ter aproximado e ter dado a força que a mulher precisava, para silenciar um dos muitos "chicos-espertos"  (e ordinários) deste mundo...

(Fotografia de Roger Schall)

quarta-feira, janeiro 03, 2018

(E Esta?) Uma Casa com Janelas Para o Rio e Para Lisboa...

Achei curiosa a transcrição de uma das cartas do D. Filipe I (o primeiro invasor espanhol...), que encontrei no meu "arquivo", numa crítica literária de Alexandra Prado Coelho, publicada no suplemento "Ipsilon", a 14 de Março de 2008:

«Indispensáveis para compreender a personalidade de Filipe I de Portugal (II de Espanha) são as cartas que escreveu às filhas durante o tempo que passou em Lisboa, depois de se ter tornado rei de Portugal.
Aí descreve a sua vida na cidade, conta detalhes domésticos, fala de trivialidades e releva o quanto gosta de estar em Lisboa. Durante as Cortes de Tomar, por exemplo, comenta: Querem vestir-me de brocado, muito contra a minha vontade, porque dizem que é o costume nestas paragens”. E noutra carta: “Atravessámos o rio para vir para Almada, onde tenho uma casa muito bonita mas pequena, e de todas as janelas vê-se o rio e Lisboa, e os barcos e as galés”.
Estas cartas reforçam a imagem que Kamen (Henry) dá a Filipe, um governante que “não pensava em termos de um grande plano” e cuja maior preocupação era “manter tudo a funcionar bem”.»
                                                 
O mais curioso é tentar descobrir onde fica essa "casa muito bonita, mas pequena, e de todas as janelas vê-se o rio e Lisboa, e os barcos e as galés". Sei que este "pequeno" tem muito que se lhe diga, pelo menos para um rei...

(Fotografia de Luís Eme - a Casa da Cerca em Almada)

terça-feira, janeiro 02, 2018

A Arte de Fingir Recomeços...

Podemos fingir que houve algo que recomeçou ontem (e nem sequer é uma má maneira de entrarmos no ano de 2018...) e que agora as coisas vão ser diferentes, para melhor (Já dizia o poeta que para pior já basta assim...). Mas a vida diz-nos que as coisas não são "bem assim"...

Claro que se mudarmos de rua, de cidade ou de país, pelo menos por uns tempos, sabemos que as coisas vão ser diferentes.

O problema maior que sinto a cada ano que passa, continua a ser a gestão do tempo. Queria ver se resolvia melhor este problema neste ano que começa, me tornava mais "disciplinado" e "independente" dos outros.

Vai ser difícil, mas com a tal "disciplina" e se criar o hábito de dizer mais vezes "não", sei que vou ter um ano mais rico do ponto de vista criativo.

Como de costume não estou refém de grandes objectivos ou desejos (a "vidinha" farta-se de me dizer que os pequenos e médios são sempre mais fácil de se cumprirem...), pelo que o 2018  vai andando por aí, tal como eu...  

(Fotografia de Luís Eme)